sexta-feira, 2 de março de 2018

Notas de Formação - Lição 08

Notas de Formação
Terceira Ordem da Sociedade de São Francisco de Assis (TSSF)
Região do Brasil - TSSF Brasil

A série Notas de Formação destina-se aos formandos da TSSF para estimular a conversação e a reflexão entre os companheiros de formação, seja em grupo ou individualmente com um companheiro espiritual ou sacerdote. Para obter o máximo dessas Notas, mês-a-mês, aconselhamos anotar suas reflexões pessoais em um diário.

Nesta postagem no blog Claras e Franciscos segue a Lição 8
Desejamos a todos e todas uma boa leitura.

Lição 8: 
Personalizando a Regra Básica da Vida dos Princípios: 
O Primeiro Objetivo: fazer com que nosso Senhor seja conhecido e amado em todo lugar (Dias 5-6)


O que há neste estudo? 
Nós exploramos o primeiro dos objetivos da Ordem, que nosso Senhor seja conhecido e amado em todos os lugares, que lemos nos dias 5 e 6 dos Princípios. São Francisco no mundo, e Santa Clara no claustro, praticaram um evangelismo tão atrativo que continua em nossos dias. O que podemos aprender deles para que nós também possamos ser evangelistas florescentes?


Começando a explorar
1. Quem é Jesus para você?

2. Além de Francisco ou Clara, pense em uma pessoa, histórica ou atual, que é um exemplo de testemunho cristão no mundo. O que tem essa pessoa que faz dela uma forte testemunha? Que qualidades você admira nela?

3. Pense num momento em que você compartilhou sua fé com alguém. O que motivou você a fazê-lo? Como foi recebido? O que essa experiência ensinou sobre o que fazer ou dizer e o que não fazer ou dizer quando evangelizar?


Da Regra Básica para Postulantes
O Primeiro Objetivo: fazer com que nosso Senhor seja conhecido e amado em todo lugar: Dedicarei tempo cada dia olhando minha vida à luz do exemplo e ensinamentos de Cristo e agindo em conformidade. Serei sincero sobre minha fé cristã com aqueles que conheço. Tentarei encarnar o Evangelho em todo momento e em todo lugar, em palavras e ações, lembrando que como eu me comporto e o que eu digo na mercearia é tão consequente quanto o que eu digo e faço no trabalho, em casa, na diversão e na igreja. (Dias 5-6)

Aprendendo com as Fontes Francisclarianas

Francisco e o lobo de Gubbio 
Um lobo feroz estava hostilizando a cidade de Gubbio, não muito longe de Assis. Tudo começou quando algumas ovelhas começaram a desaparecer às altas horas da noite. Então, o lobo tornou-se mais ousado e começou a roubar ovelhas em plena luz do dia. Por fim, começou a gatear-se para a aldeia mesma. Alguns dizem que ele devorou crianças pequenas que o voltaram para casa quando suas mães as chamavam.
Os cidadãos de Gubbio estavam com medo, muito medo. Eles estavam especialmente com medo de deixar as muralhas da cidade e permitir que seus filhos brincassem nos campos. São Francisco já era bem conhecido, então quando alguém ouviu falar que estava perto de Gubbio, os aldeões enviaram mensageiros para pedir ajuda.
Quando São Francisco alcançou a caverna ao lado de fora das muralhas da cidade, o lobo correu até ele grunhindo, uivando e espumando na boca. Francisco cruzou-se, e com isso o lobo parou, rosnando e mostrando os dentes.
Armando-se de coragem, São Francisco começou a repreender o lobo: "Como tu ousas me assustar assim?" O lobo encolheu os ombros, enfiou a cauda entre as pernas e gemeu.
Francisco imediatamente mudou de opinião. "Oh, irmão lobo," disse. "Quem sou eu para te repreender, uma das criaturas de Deus? Tu apenas fazes o que foste feito para fazer. Quando estás com fome, deves comer, vives de acordo com as leis de Deus, as leis da natureza."
O rosto de São Francisco iluminou-se com inspiração. Ele disse ao lobo: "Eu vou fazer contigo um acordo! O povo de Gubbio irá alimentá-lo para que nunca mais fiques com fome; em troca, tu não vais prejudicar as pessoas desta cidade." Ele acrescentou: "E por tua vez, protegerás essas pessoas gentis, guardando sua aldeia à noite ".
Embora  os aldeões duvidaram desse acordo, quando viram o lobo colocar sua garra na mão de São Francisco, todos concordaram.
A partir desse dia, os cidadãos de Gubbio alimentaram o lobo com os restos de comida, e o lobo protegia a aldeia. Quando, depois de muitos anos, o lobo morreu, os moradores choraram e ergueram uma estátua de São Francisco e o Lobo na praça principal como lembrete do poder do amor corajoso mesmo diante do inimigo mais feroz. —Atos 23

Clara sobre o amor para Deus

Contempla, além disso, as inefáveis delícias, as suas eternas riquezas e honras e exclama suspirando, plena de anseios e com profundo amor:

Atrai-me a Ti
e correrei ao odor dos teus perfumes,
ó celeste Esposo.
Correrei sem desfalecer,
até que me introduzas na sala do festim,
até que a minha cabeça
repouse sobre a tua mão esquerda,
e a tua direita me abrace com ternura
e me beijes com o ósculo suavíssimo da tua boca.  (4CCL28-32)

Uma Leitura de Os Princípios

Dia Seis – O Primeiro Propósito (continuação)
O propósito principal dos terciários e das terciárias é, portanto, tornar Cristo conhecido. Isso molda nossas vidas e atitudes de modo que reflitam a obediência daqueles a quem Nosso Senhor escolheu para estar com Ele, sendo enviados como suas testemunhas. Como eles, os terciários e as terciárias, pela palavra e pelo exemplo, testemunham a Cristo em seu próprio ambiente imediato de vida, e oram e trabalham para o cumprimento de seu mandamento de fazer discípulos de todas as nações.

Explorando mais a fundo: O primeiro objetivo

Os Franciscanos da Terceira Ordem na Comunhão Anglicana têm três objetivos derivados dos exemplos de São Francisco e Santa Clara. O primeiro é tornar nosso Senhor conhecido e amado em todo lugar.
Na Portiuncula, em 1208, Francisco escutou o chamado para pregar a penitência e a conversão, fazendo a missão de pregar um comando ordenado por Deus. Essa missão foi legitimada quando o Papa Inocêncio III deu aos frades um mandato para pregar. Isso permitiu que Francisco e os irmãos pregassem em nome da Igreja e exercitassem a sua missão além da diocese de Assis. Espalhar o Evangelho foi a missão dos frades, central a sua Regra, e demonstrou lealdade à Igreja.
Santa Clara, parceira de Francisco, também pregava a penitência e conversão, não nas ruas mas sim dentro do claustro, demostrando que não é preciso ser andadeira, ou estar lá fora no mundo, para cumprir o mandato de Deus. Clara e o monge trapista americano Thomas Merton (1915-1968) nos mostram que a vida solitária e contemplativa permite que possamos estar espiritualmente em todo o mundo enquanto permanecemos fisicamente num só lugar. A passagem citada de Clara revela que, embora virgem e casta, ela sabia muito bem que as imagens do amor carnal podem expressar em alto grau o amor celestial. (O Cantar dos Cantares do Antigo Testamento é um exemplo bíblico, e de fato ela o usava de padrão.) Santa Clara viveu o chamado do evangelho ao exercer uma vida de pobreza, oração y trabalho manual dentro do claustro, mas o amor e a alegria expressados por sua comunidade não podiam ser contidos. O Papa Inocêncio IV reconheceu isso ao aprovar a Regra de Clara em 1253. O exemplo das Damas Pobres emana sua doce fragrância ao mundo além dos limites da geografia e do tempo.
Do mesmo modo, os franciscanos seculares visam viver uma vida ordinária entre gente ordinária enquanto seguem simultaneamente uma regra de vida que resista o mundo e convide outros para a conversão. Nós atraímos outros a Cristo, saudando todos os que encontrarmos com mãos e corações abertos, e encorajamos todos a crescerem no Espírito. Somos uma comunidade diversa de todos os caminhos e modos de vida, ativos e contemplativos, espalhados por todo o mundo, que pregam, oram e trabalham pela Unidade do Corpo de Cristo.

Primeiro, conheça e ame o Senhor você mesmo
Esta lição das Notas de Formação começou com a pergunta, "quem é Jesus para você?" Por quê? Porque, para compartilhar nosso Senhor com os outros, devemos primeiro saber quem é o Senhor para nós mesmos. Não há resposta certa ou errada; Jesus pode assumir uma série de papéis diferentes para nós, amigo íntimo, amante, salvador, Deus, professor, curador, em diferentes pontos de nossas vidas, mas é essencial saber quem ele é no mais íntimo de nosso coração, se formos compartilhar quem ele é com os outros. Ninguém nos ensina melhor que Santa Clara que a primeira pessoa a quem você deve fazer conhecer e amar é você.
Experimente com parafrasear o objetivo, para tornar meu [amigo / amante / professor] conhecido e amado. Cada papel lança uma luz diferente sobre quem e como compartilhamos nosso Senhor. Por exemplo, se usarmos amigo, posso passar para outros quem meu amigo é e por que eu o amo. Meu relacionamento com meu amigo afetou profundamente minha vida e a maneira como eu me vejo a mim e aos outros. No tempo que cultivei o relacionamento com meu amigo, compartilhamos várias experiências, boas e más, engraçadas e tristes, divertidas e difíceis. Aprendi que não é arriscado ser eu mesmo com meu amigo, e que meu amigo vai me amar, seja o que for, se eu brilhar ou se eu falhar miseravelmente. Embora meu amigo conheça meus segredos mais profundos e os recessos mais sombrios da minha alma, não há nada em mim nem sobre mim que fará meu amigo afastar-se. E isso é motivo de gritar desde os telhados com alegria!

A Missiologia de São Francisco
Como trovador de Deus, São Francisco não queria nada além de compartilhar com o mundo inteiro a fonte de sua grande alegria e coração embebido de amor. Mas compartilhar seu Senhor com outros raramente era fácil e às vezes causava ridículo ou, pior, pancadas. Compreendendo o desafio, São Francisco desenvolveu uma estratégia para fazer com que o Senhor fosse conhecido e amado. Ele aprendeu a eficácia desta estratégia mais profundamente quando ousou, com sua vida, visitar o Sultão do Egito em 1219, durante a Quinta Cruzada. As forças cristãs estavam envolvidas em um prolongado cerco da cidade portuária de Damietta, à frente do Nilo. Horrorizado com a chacina que ele estava presenciando, e contra os desejos de seus superiores, Francisco cruzou linhas inimigas com um companheiro, armado apenas com amor. Sua missão? Converter o sultão, Malik al-Kamil, líder do exército oponente, segundo as histórias um déspota cruel que cortava as cabeças de cativos. Francisco não converteu o Sultão, mas ganhou o respeito, mesmo a amizade de Malik, que o deixou ir depois de três dias. Assim como na história do lobo de Gubbio, Francisco conseguiu compartilhar o amor de Deus com o mais espantoso "inimigo".

A estratégia de São Francisco para a missão é tripla:

1.Os missionários devem viver pacificamente e solidariamente com o outro. Devemos reconhecer a fraternidade e a irmandade de todos os povos porque compartilhamos um Pai que ama e nos recebe a todos.
2.Os missionários devem ser construtores de pontes ao exercer uma vida de serviço, a Diakonia, como exemplificado por Jesus, que tomou uma toalha e lavou os pés de seus discípulos.
3.Somente quando apropriado devem os missionários exercitar o kerigma, é pregar o Evangelho e chamar pessoas para a conversão.

A missiologia de Francisco pode ser resumida por suas palavras que atualmente estão ganhando fama: "pregar o evangelho sempre; quando necessário usar palavras". Isso significa que nosso comportamento diário é importante.
Francisco aconselhou seus irmãos que havia apenas uma maneira de alcançar seu modo de fazer missão, e isso era aceitar e celebrar o amor de Deus em si mesmo e no próximo. Então, onde há alienação, encontraremos reconciliação; onde há separação, faremos conexões; e em vez de isolamento e solidão, teremos comunidade.

Ação ministerial

As histórias de São Francisco compartilhando o amor de Deus com o lobo de Gubbio e com o Sultão nos mostram que o objetivo de fazer nosso Senhor conhecido e amado em todos os lugares não é um ideal abstrato, mas sim essencial para encarnar o Reino de Deus em nosso mundo quebrado e sofredor .

1.Pratique o ver os outros como criados por Deus. Quando você se encontra frustrado com fazer fila ou com o tráfego ou com pessoas que não saem da frente, tente mudar sua atitude para ver os outros como membros do Reino de Deus. Tente amá-los, seja apenas um pouco.

2.Escolha uma pessoa em uma multidão que parece precisar de ajuda, talvez uma mãe com crianças pequenas que poderia ocupar o seu lugar na fila, ou alguém desesperado pelo lugar de estacionamento que você está prestes a tomar, ou um idoso carregando sacolas pesadas ... e ofereça ajuda.

3. Observe um momento em uma conversa quando você poderia compartilhar seu amor a Deus. Aproveite o momento e fale a essa pessoa sobre o que Deus fez por você em sua vida.


Para Reflexão: 

1.Pense em um momento em que você se confrontou com uma pessoa difícil. Como você respondeu? Como a lembrança do amor de Deus, para ti e para o outro, poderia ter mudado sua resposta?

2, Depois de oferecer ajuda a um desconhecido (# 2 da ação do ministério), como o estranho respondeu? Como isso fez você se sentir? Lembrou-se de agradecer a Deus pela oportunidade?

3. Descreva um momento em que você compartilhou seu amor a Deus com alguém. Parecia arriscado? Como essa pessoa respondeu? Isso levou a um resultado surpreendente? Explicar.

Personalize sua Regra

Depois de lidar com esta lição, quais mudanças ou adições você pode fazer a 2. O Primeiro Objetivo, para tornar nosso Senhor conhecido e amado em todos os lugares, da Regra Básica da Vida (ou para 9. Obediência se você estiver vivendo pela tradicional regra de 9 pontos) para torná-la mais adequada às suas circunstâncias particulares? O que você precisa fazer para divulgar o conhecimento e o amor de Deus? Discuta com seu companheiro espiritual.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Notas de Formação - 07

Terceira Ordem da Sociedade de São Francisco (TSSF)
Região do Brasil

A série Notas de Formação destina-se aos formandos da TSSF para estimular a conversação e a reflexão entre os companheiros de formação, seja em grupo ou individualmente com um companheiro espiritual ou sacerdote. Para obter o máximo dessas Notas, mês-a-mês, aconselhamos anotar suas reflexões pessoais em um diário.


Nesta postagem no blog Claras e Franciscos segue a Lição 7
Desejamos a todos e todas uma boa leitura.
Lição 7:
Personalizando a Regra Básica da Vida 
Dos Princípios: 
1. O Objeto: Construir uma Comunidade de Amor (Dias 1-4)
Revisão das Lições 1-6:

Nas seis primeiras lições, exploramos brevemente os alicerces da Terceira Ordem: nossos fundadores, história e requisitos de requerimento (companheiro espiritual, regra de vida). No próximo conjunto de Notas (7-16), exploraremos as áreas dos Princípios e suger

iremos formas para você fazer a Regra Básica para Postulantes em uma versão personalizada, que se ajuste a quem você é como membro único da ordem.

 O que há neste estudo?

             Nós exploramos a primeira área dos Princípios, o Objeto, que lemos nos dias 1-4, com o intuito de verificar como a idéia-chave de entrega pode nos abrir para amar mais em nossa vida diária e a vida da comunidade franciscana.

 Começando a explorar  

             1. Quando você ouve a palavra "entrega," quais são algumas das primeiras idéias que vêm à mente?

 2. Pense em um momento em que você se sentiu incompreendido. Qual foi a causa? Porquê você não conseguiu entender as outras pessoas envolvidas?

 3. Qual é um exemplo do seu egoísmo? Porquê é importante para você possuir essa idéia / coisa / pessoa? Como você pode relaxar seu controle sobre isso?


Da Regra Básica para Postulantes

 

1. O Objeto da Ordem: Construir uma Comunidade de Amor (Dias 1-4)

    Minha primeira prioridade é dizer SIM ao chamado de Deus e estar aberto ao movimento do Espírito Santo na minha vida.

    Especificamente, vou considerar como eu sou chamado a construir comunidades de amor a cada dia onde eu moro, trabalho e assisto à celebração religiosa.

    Procurarei ser um agente da paz, defender o que é bom para a criação e promover o bem-estar de todas as pessoas, incluindo eu mesmo.

    Cultivarei um coração grato e praticarei a resiliência (superando as dificuldades pessoais).

    Para construir um relacionamento com meus irmãos e irmãs na TSSF, buscarei oportunidades de companheirismo; rezar diariamente o Compromisso da Comunidade; contribuir financeiramente dentro dos meus meios para a Ordem; interagir responsivamente com meu companheiro espiritual; renovar meus votos anualmente; e respeitar as decisões do Capítulo.

Aprendendo com as Fontes Francisclareanas

 

Francisco despe-se na presença de bispo, pai e gente da cidade

            Diante do bispo, já não suportou demoras e nada o deteve. Nem esperou que falassem, nem ele mesmo disse nada. Despiu-se imediatamente, jogou ao chão suas roupas e as devolveu ao pai. Não guardou nenhuma peça de roupa, ficou completamente nu diante de todos. O bispo, compreendendo sua atitude e admirando seu fervor e sua constância, levantou-se e o acolheu em seus braços, envolvendo-o na capa que vestia. Compreendeu claramente que era uma disposição divina e percebeu que os atos do homem de Deus que estava presenciando encerravam algum mistério.

            Tornou-se, desde então, seu protetor, favorecendo-o, confortando-o e abraçando-o com caridade. É aqui que o nu luta com o adversário nu e, desprezando todas as coisas que são do mundo, aspira apenas a justiça de Deus. Foi assim que Francisco tratou de desprezar a própria vida, deixando de lado toda solicitude, para encontrar como um pobre a paz no caminho que lhe fora aberto: só a parede da carne separava-o ainda da visão celeste.                                                                                                       —1Cel 6.15, 1-7

 

 

Apropriar tudo para Deus

            Não é de admirar que São Francisco tivesse essa conversa com o bispo de Assis, o qual lhe disse: "Acho sua vida difícil demais, muito áspera. Você não possui nada no mundo." "Meu Senhor", Francisco respondeu, "Se tivéssemos bens, precisaríamos de armas para defendê-los".

            Não é de admirar, também, que São Francisco proibiu os irmãos de terem moradias próprias, e de não apropriar nada para si. Tudo deveria ser considerado empréstimo de Deus, do Grande Doador de Esmolas, e os irmãos deveriam tratar todas as coisas criadas, animadas e inanimadas, como bons donativos de Deus que se tornam malvados por nossa própria cobiça e possessividade. Não é que uma coisa individual em si mesma seja má, mas nossas apropriações dela como se fosse nossa, sem referência ao Deus que a criou, que a mantém na existência e que a santifica. Para São Francisco, todas as coisas devem ser tratadas com reverência e com referência ao seu criador, através delas devemos oferecer louvor e ação de graças a Deus.                                      

                        --Murray Bodo, Entrando em Assis (cf. A Lenda dos Três Companheiros, 14:35)


Clara proíbe possuir propriedade

         E como eu sempre fui solícita com minhas Irmãs, na observância da santa pobreza que ao Senhor Deus e ao bem-aventurado Francisco prometemos guardar, assim sejam obrigadas as abadesas que me sucederem no cargo e todas as Irmãs a observá-la inviolavelmente até o fim: isto é, a não aceitar nem ter posse ou propriedade nem por si, nem por pessoa intermediária, e nem coisa alguma que possa com razão ser chamada de propriedade, exceto aquele tanto de terra requerido pela necessidade para o bem e o afastamento do mosteiro. E essa terra não será trabalhada a não ser para a horta e a necessidade delas.                                                                       Regra de Santa Clara, 6, 10-15

 

 

Sobre a oblação

            E tendo preterido totalmente todos aqueles que, neste mundo falaz e perturbador, enganam seus cegos servidores, ama inteiramente só Aquele que se entregou todo por teu amor....               —Terceira Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga (3CCL), 15

 

Uma Leitura de Os Princípios

 

Dia Dois – O Objetivo (continuação)

Pelo exemplo de seu sacrifício pessoal, Jesus revela o segredo de como produzir frutos. Ao se entregar a si mesmo à morte, ele se torna a fonte de nova vida. Da terra erguido sobre a cruz, ele atrai todos a si. A busca ansiosa pela vida leva a própria vida ao seu declínio; a vida que é dada livremente é eterna.

 

 Explorando mais a fundo

 

Oblação

         O Objeto é o presente, ou oblação, do eu, do corpo-mente-alma, para Deus. A oblação reza: "tudo o que eu sou e tudo o que tenho é teu, Senhor. Usa-me para suportar tua luz e amor em tudo o que eu digo e faço e sou." Somos convidados a deixar as distrações de nossas vidas, internas e externas, a tornarmos acessíveis ao Deus falando para nós, para nossos corações e para o funcionamento do Espírito Santo dentro e através de nós. Para que Deus possa entrar, devemos desistir da nossa ilusão de controle. Isso exige ficar em um lugar de vulnerabilidade, a qual a autora Brené Brown descreve como "a vontade de ficar ‘inteiramente por dentro,’ mesmo quando você sabe que pode falhar e se machucar.” É a vontade de abandonar a certeza, arriscar aquilo que é desconhecido, ser de coração aberto. Entregar-se é nada menos que ter a coragem de deixar-se a si, e deixar entrar a Deus.

         A auto-entrega custa tudo. E qual a recompensa? Vida em Deus: paz, amor, bondade. E, no entanto, isso não garante nada segundo os padrões mundiais. Continuaremos a sofrer. Continuaremos a duvidar. Continuaremos a nos perguntar "e agora, quê?". A diferença é que a ansiedade da incerteza é substituída pela paz, a defesa contra as ameaças percebidas é substituída pelo coração aberto, o reinado do mal é substituído pela bondade arrasadora.

            O problema é que não sabemos como é o reino de Deus até chegarmos lá. Onde ou o que é não pode ser conhecido a distância. Quê distância? Fica longe? Não, fica perto, muito perto. Fica por dentro, em nossa mente, em nosso coração. Ainda assim, a viagem será árdua porque temos dedicado toda uma vida em proteger o íntimo de nosso ser.

            A única maneira de “chegar” é, paradoxalmente, afastar-nos, sair da frente, ceder o passo a Deus, oferecendo-nos em oblação. Talvez apareça que não estamos fazendo nada, mas é precisamente esse não-fazer que permite a Deus nos tocar como se fôssemos instrumento musical.

            Você alguma vez foi ver o médico para manipulação de um braço ou perna? A pior coisa que você poderia fazer seria “ajudar” o médico no movimento. O médico não nos pode sarar se “ajudamos.” Nossa tarefa é relaxar e deixar trabalhar o médico. Assim é com Deus. Nossa tarefa é desistir “ajudando” e deixar que Deus nos toque. Daí seremos instrumento de Deus. Daí nossas vidas serão orar sem cessar.

            Resumindo: temos que desarmar todo aquele aparelho de segurança que construímos a través das décadas para proteger-nos, as cordas, as polias, as redes, e entregar-nos, completamente nus, à vida plena em Cristo.

 

Vamos ficar nus

         Quando Pietro Bernardone desafiou publicamente seu filho, Francisco não lutou, não se defendia. Em vez disso, o jovem literalmente tirou toda sua roupa na praça pública. Ele desarmou aqueles que o acusavam, primeiro em se desarmando a si mesmo. Francisco entendeu que a pobreza evangélica não é uma luta, não é algo para conseguir, mas sim uma questão de entrega completa e total a Deus. E é um negócio arriscado porque não sabemos como vai acabar. Entrega significa desistir de controlar, e quem sabe o que pode acontecer se não temos controle!

            A vulnerabilidade que acompanha a nudez é o que buscamos para nos entregar a Deus. Poucos de nós somos capazes de tirar a roupa de uma vez, aqui e agora, ante todo mundo, mas podemos começar uma prática lenta e consistente tirando pouco a pouco. Cada peça que tiramos nos leva um passo mais perto do coração de Deus.

         Na Lição 4 destas Notas de Formação, consideramos o caminho francisclariano da Pobreza Evangélica. Não é que busquemos a pobreza, mas sim que a pobreza é o meio para um coração aberto e compassivo. Quanto menos coisas nós temos, mais nos rendemos. "Coisas" naturalmente incluem bens, mas não esqueça que nossas idéias, dogmas, padrões, podem ser impedimentos ao nosso relacionamento com Deus e com os outros.

            Francisco e Clara são nossos exemplares, nossos professores. E o que eles ensinam? Que cada momento, todos os dias, é uma oportunidade de se render completamente e de forma decisiva, ou até o máximo que pudermos naquele momento, ao amor. Nas palavras de Santa Clara na carta a Inez: "Coloca a tua mente diante do espelho da eternidade! Coloca tua alma no brilho da glória! E transformar todo o teu ser ... através da contemplação" (12-13). Ou nas ações de São Francisco: fica nu.

            Eloi Le Clerc, em seu livro, Retorno aos Evangelhos, escreveu que "Clara fez Francisco compreender que a paz de coração era a maior forma de pobreza, a paz que vem da entrega total de si mesmo a Deus." Clara, como Francisco, sempre colocou o evangelho primeiro. Isso permitiu a misericórdia de Deus e a minoria do eu moldarem sua visão do mundo. O "privilégio da pobreza", que Clara procurava e obteve do Papa, tinha menos a ver com bens materiais e mais com o caminho da misericórdia e da vulnerabilidade. Portanto, seguindo as instruções de Jesus para nós, devemos dar a Deus as coisas que são de Deus. Nós pertencemos a Deus e em Deus vivemos, nos movemos e temos nosso ser. É lá onde encontramos a nossa verdadeira identidade como pessoas amadas e feitas por Deus; e tão pronto para amar os outros.

 

 

Ação ministerial

 

         No confronto, uma das pegadas mais úteis é aquela que você leva para trás. Quando você se encontra em um momento difícil com alguém, dê um passo atrás. Respire e pergunte:

 

+ Como posso ver isso de forma diferente?

                                               - estou culpando o outro? posso apontar o dedo pra mim?

                                               - Preciso reconhecer o mérito do outro?

            + O que eu preciso largar?

                        - a opinião dos outros?

                        - a necessidade de estar certa?

                        - uma idéia de quem eu acho que sou?

                        - alguma necessidade ou emoção interna que bloqueie meu coração?

            + Estou me defendendo da vulnerabilidade?

                   - eu preciso estar no controle?

                        - Temo o desconhecido?

Finalmente, agradeça pelo momento, solte e relaxe no amor de Deus.

 

Para Reflexão:

 

1. Que ação concreta você precisa tomar para ser mais aberto ao Caminho de Deus em vez do caminho de você? Existe uma prática que você pode adotar diariamente para promover a auto-entrega ao Amor?

 

2. Descreva um momento em que você pulou para fazer ou dizer algo sem confiança, quando esse “algo” parecia arriscado. Como acabou? Você sentiu a ação de Deus nessa experiência? Explicar.

 

3. Com quais práticas eu me envolvo no dia a dia para me responsabilizar por minha regra de vida?

 

Uma nota sobre Fidelidade

            Os elementos da Fidelidade (Obediência) e as marcas de adesão na TSSF se encaixam bem nesta seção da regra, O Objeto, porque eles mostram compromisso com a comunidade que devemos criar e sustentar. Esses elementos incluem: contribuição financeira, renovação anual de votos, relatórios regulares, dizendo a Obediência Diária. Outros elementos podem ser incluídos em outros lugares, Santa Eucaristia, reconciliação em 5. Oração; e companheirismo espiritual e retiro em 8. Humildade ou 9. Amor.

           

Personalize sua Regra     

 

            Depois de lidar com esta lição, quais mudanças ou adições você pode fazer para 1. O Objeto da Regra Básica da Vida (veja a pagina 2. acima; ou para 9. Fidelidade (Obediência) é que você está vivendo pela regra tradicional de 9 pontos) para torná-lo mais adequado às suas circunstâncias particulares? Discuta com seu companheiro/a espiritual.

O que você precisa fazer para se jugar mais a Deus e a Comunidade, e menos a si?